terça-feira, 16 de maio de 2017

O significado das manifestações sonoro-visuais do Espírito Santo no Pentecostes de Atos 2

Josivaldo de França Pereira

O tempo entre a ascensão de Jesus e a espera dos discípulos para o derramamento do Espírito Santo foi curto, de apenas dez dias.  Nas palavras do Mestre, o Pentecostes ocorreria "não muito depois destes dias" (At 1.5). O Pentecostes é o ponto alto da sequência de eventos relacionados à morte, ressurreição e ascensão de Jesus. É por isso que para Lucas o Pentecostes possui um sentido prático e dinâmico, traduzido em termos de nascimento e missão da igreja neotestamentária.[1]
Qual o significado das manifestações sonoro-visuais do Espírito Santo em Atos 2?
O som de vento e línguas como de fogo
Diferente do entendimento de muitos, em Atos 2.2,3 não houve vento nem fogo, ou seja, não houve nessa ocasião o sopro real de um pé de vento e nem uma fagulha de fogo sequer. O texto é nítido em afirmar que veio do céu um som como de um vento impetuoso (portanto, um som de vento) e línguas como de (parecido com) fogo. Qual o significado do som como de vento impetuoso e línguas como de fogo em Atos 2? Na Bíblia, o vento às vezes simboliza a presença de Deus e ação do Espírito Santo (cf. 1Rs 19.11; Ez 37.9; Jo 3.8; 20.22). Em Atos 2.2 o som de vento impetuoso denota poder celestial e seu aparecimento repentino revela a inauguração da Igreja de Cristo de forma extraordinária e sobrenatural.
O fogo, espiritualmente falando, era o cumprimento da descrição de João Batista do poder de Jesus: "Ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo" (Mt 3.11; Lc 3.16). No Antigo Testamento, o fogo é frequentemente um símbolo da presença de Deus para expressar santidade, juízo e graça (cf. Êx 3.2-5; 1Rs 18.38; 2Rs 2.11). Em Atos 2 apareceram, distribuídas entre os que estavam reunidos naquele lugar, línguas como de fogo, e pousou uma sobre cada um dos crentes que se encontravam na casa. Em decorrência disso, “Todos ficaram cheios do Espírito Santo e passaram a falar em outras línguas, segundo o Espírito lhes concedia que falassem” (At 2.4).
Notemos que Lucas tem o cuidado de observar que não foram simplesmente o som de vento e línguas como de fogo que invadiram a residência, e sim, o próprio Espírito Santo quem adentrou o cenáculo com som de vento e línguas como de fogo, conforme o relato de Atos 2.4. Essa foi a maneira que o evangelista encontrou para dizer que o que aconteceu naquele dia não tinha nada a ver com fenômenos meramente naturais.
As línguas inteligíveis
Quanto à natureza das línguas faladas em Atos 2.4, não é preciso especular se eram dos homens ou dos anjos. Lucas deixa claro que os "galileus"[2] (no caso os apóstolos e outros que estavam na casa) de Atos 2.7 falavam as línguas das nações presentes naquela festa (At 2.5-11). São línguas conhecidas, faladas em regiões que vão desde a Pérsia, no Oriente, até Roma, no Ocidente. Segundo Marshall, "a história ensina que línguas humanas inteligíveis são significativas, não as línguas ininteligíveis como as frequentemente encontradas na glossolalia moderna ou como as que usualmente pensa-se ter sido faladas em Corinto".[3]
De acordo com Kistemaker, não podemos equiparar o acontecimento do Pentecostes com o falar em línguas de Corinto. Os crentes que falam em outras línguas no Pentecostes não o fazem para edificação da igreja (diferente da fala extática [1Co 14]). Enquanto na igreja dos coríntios a fala extática deve ser interpretada, no Pentecostes os ouvintes não necessitam de intérpretes porque podem ouvir e são capazes de compreender cada um sua própria língua.[4]
É provável que o conteúdo das línguas faladas em Atos 2 consistisse da mensagem profética da justiça e graça de Deus a todos os povos, línguas e nações, conforme sugere Pedro em sua pregação de Atos 2.14-41. Quanto ao propósito das línguas faladas em Atos 2, está evidente que elas focavam a obra missionária, e não especificamente a edificação particular da igreja ou dos seus membros individuais (cf. At 2.5,8).[5]
Enquanto em Babel (Gn 11.1-9) houve confusão e divisão, em Jerusalém foi proclamada uma só mensagem em muitas línguas. A mensagem da unidade e universalidade em Cristo Jesus. Moisés (Dt 28.49) e Isaías (Is 28.11) profetizaram as deportações de Israel e Judá por nações de língua estrangeira (o que aconteceu no ano 722 a.C. com o cativeiro assírio e em 587/6 a.C. com o cativeiro babilônico, respectivamente) por causa do pecado e desobediência do povo da Aliança. Entretanto, em Atos 2 as línguas foram sinais explícitos da bênção de Deus para todas as famílias da terra.[6]




[1] De acordo com Donald GUTHRIE (In: Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Cultura Cristã, 2011, p. 541), “A origem da Igreja Cristã deve ser traçada até o Pentecostes. Foi esse evento que iniciou a era da igreja, que também pode ser considerada como a era do Espírito”.
[2] Você achará uma boa análise do termo "galileus" de Atos 2.7 em C. S. MANN, Pentecost in Acts. In: MUNCK, Johannes (ed.). Anchor Bible: The Acts of the Apostles. New York: Doubleday & Co., 1967, p. 271-275.
[3] I. H. MARSHALL, The Significance of Pentecost. In: Torrance, T. F. & Reid J. K. S. (Eds.). Scottish Journal Theology. Scottish Academic Press, N0 4, 1977, p. 357. Para uma distinção interessante entre a experiência de línguas em Atos quando comparada com a de 1Coríntios, consulte Antony A. Hoekema, Holy Spirit Baptism. Grand Rapids: W. B. Eerdmans, 1973, p. 48,49.
[4] Simon KISTEMAKER, Comentário do Novo Testamento: Atos. Vol. 1. São Paulo: Cultura Cristã, 2006, p. 111.
[5] I. Howard MARSHALL, Atos: Introdução e Comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova, 2014, p. 50. Veja também Paul E. PIERSON, Atos Que Contam. Londrina: Descoberta, 2000, p. 19, 43, 78-83, 179,180.
[6] Cf. Augustus NICODEMUS, O Pentecostes e o Crescimento da Igreja: A extraordinária ação do Espírito Santo em Atos 2. São Paulo: Vida Nova, 2017, p. 28.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

O cego de Jericó nos evangelhos sinóticos

                                                                                                                     Josivaldo de França Pereira



A história do cego mendigo de Jericó encontra-se registrada em Mateus 20.29-34; Marcos 10.46-52 e Lucas 18.35-43. João não a menciona por uma questão de propósito e objetivo a nós desconhecida. Marcos narra a cura do cego “Bartimeu”; Lucas conta a história de “um cego”, sem citar o nome do pobre homem. Mateus fala de “dois cegos”. E enquanto Mateus e Marcos situam o acontecimento quando Jesus saía de Jericó, Lucas inverte a ordem, dizendo que o Mestre se aproximava da cidade. Qual o motivo para essas aparentes contradições? Por que Mateus diz que eram dois cegos e Marcos e Lucas apenas um? Por que Lucas relata que a cura do cego aconteceu quando Jesus se aproximava da cidade de Jericó, e Mateus e Marcos quando ele saía da cidade?
Existem muitas sugestões de respostas para estas perguntas, mas nenhuma delas é conclusiva. Alguns acreditam que a narrativa de Mateus apresenta dois homens curados porque ele deixou de lado a narrativa dada por Marcos em Mc 8.22-26, e que dessa maneira quis compensar pela omissão. Contudo, tal explicação não tem base bíblica. Outros entendem que houve dois homens (conforme declara Mateus), porém, um deles foi muito mais vociferador (Bartimeu), sendo o principal a chamar a atenção para si, mencionado por Marcos e Lucas, enquanto seu companheiro foi deixado omisso, ou que então se tornou um discípulo de Jesus bem conhecido dos leitores originais. Não temos como confirmar ou negar essas sugestões. Porém, parecem melhores do que as que afirmam tratar de duas ou três narrativas sobre milagres separados, isto é, que as narrativas de Marcos e Lucas estão separadas da de Mateus. É óbvio que as três narrativas abordam um único incidente.
Não existe contradição alguma entre os três relatos bíblicos. Nós é que não dispomos de todos os mecanismos para visualizar a história como um todo. Portanto, a contradição entre os três evangelhos não é real, mas aparente, visto que nem Marcos nem Lucas dizem que Jesus restaurou a visão somente de um cego. Quanto ao mais, devemos admitir que não temos a resposta: não sabemos porque Marcos escreveu sobre Bartimeu, Lucas não registra o nome do cego e ambos não mencionam o outro homem.
Outros ainda têm apelado para a teoria das duas narrativas a fim de explicar porque Lucas afirma que a ocorrência se deu quando Jesus entrava em Jericó, ao passo que os demais (Mateus e Marcos) asseveram que o episódio ocorreu quando Jesus saía da cidade. Muitos creem que os arqueólogos descobriram a existência de “duas” Jericós, o que explicaria a aparente contradição. Assim, Mateus e Marcos se referiam à antiga Jericó (a cidade cananeia original), e Lucas à nova Jericó (fundada por Herodes, o Grande), que ficava próxima da localidade mais antiga, uma espécie de continuação ou divisão da primeira cidade. A nova Jericó fica a 8 km a oeste do rio Jordão, e cerca de 24 km a leste de Jerusalém, a 1,5 km ao sul do local da antiga cidade. Nesse caso, é possível que os dois cegos estivessem realmente entre as duas localidades quando ocorreu o milagre.[1]




[1] Para outras possíveis interpretações e objeções, consulte Guillermo Hendriksen, Comentário del Nuevo Testamento: Mateo. Grand Rapids: SLC, 1986, p. 789-791; Russell N. Champlin, O Novo Testamento interpretado versículo por versículo. Vol. 1. São Paulo: Hagnos, 2002, p. 505.  

quarta-feira, 22 de março de 2017

A LIÇÃO DO AMOR

Mensagem de João 21.15-17

Josivaldo de França Pereira

Certamente, uma das perguntas mais intrigantes que o Cristo ressurreto fez a um reles mortal foi esta: “Tu me amas?”. E no caso de Pedro uma inquietação ainda maior surgiria porque este discípulo, a pouco, havia negado o Mestre três vezes. No entanto, a tripla indagação não veio em forma de revanche ou acusação. Ela está repleta da ternura daquele que busca a ovelha perdida para restaurá-la – Jesus.
Nos Evangelhos o amor que devemos ter para com os irmãos e os inimigos aparece sempre no modo imperativo (cf. Mt 5.44; Lc 6.27,45; Jo 15.12,17). Jesus ordena: “Amai”! Ele nunca diz que o amor é algo que devemos simplesmente sentir pelo nosso semelhante. Amai é um mandamento imperativo. O amor cristão é algo que deve ser buscado, desejado, perseguido!
Entretanto, quando Jesus fala do amor que devemos ter para com ele, o verbo amar aparece no presente do indicativo (cf. Jo 14.15) e, em João 21.15-17, na forma da indagação que espera um “sim” definitivo. E mesmo que a resposta não venha de imediato na primeira ou segunda vez, Jesus, que conhece o nosso íntimo, insiste novamente, e, de novo, sem usar o imperativo “amai-me!”. Aquele que ternamente pergunta: “Tu me amas?”, aguarda um sincero: “Sim, Senhor, tu sabes que te amo”, no presente do indicativo também!
Alguns estudiosos têm-se limitado a examinar o texto de João 21.15-17 em torno das palavras gregas “agapáo” e “filéo”. Dois verbos para “amar”. Hendriksen, por exemplo, assegura que em João 21.15-17 existe uma semântica diferente entre os dois termos. Segundo ele, agapáo é o verbo da classe mais elevada de amor, enquanto filéo é o verbo do amor subjetivo de afeto.[1] Carson discorda do ponto de vista de Hendriksen e conclui: “Talvez eu devesse acrescentar que não estou sugerindo que não há nada distinto sobre o amor de Deus. As Escrituras insistem que há. Mas o conteúdo do amor de Deus não está relacionado em termos diretos com o campo semântico de qualquer palavra ou grupo de palavras. O que a Bíblia tem a dizer sobre o amor de Deus é transmitido por meio de frases, parágrafos, discursos, e assim por diante; isto é, por meio de unidades semânticas maiores que a palavra”.[2]
Bruce segue a mesma linha de Carson quando diz que “aqui [em Jo 21.15-17] a base é precária para sustentar uma distinção entre os dois sinônimos”.[3] Calvino, embora não diga de forma explícita, parece considerar os dois verbos igualmente idênticos em seu significado.[4]
“A variação é um aspecto do estilo de João: nos mesmos três versículos [Jo 21.15-17], foram empregadas duas palavras diferentes para ‘saber’, duas para ‘apascentar’ [ou ‘pastorear’], e duas para ‘ovelhas’ [ou ‘cordeiros’]”.[5] De modo que a ênfase de João 21.15-17 não está na disputa dos verbos agapáo e filéo, mas no diálogo em si, ou seja, Jesus quer saber se Pedro o ama, o quanto Pedro o ama e como Pedro deve amá-lo. A primeira pergunta talvez seja a mais difícil das três porque está acompanhada de um complemento crucial: “Amas-me mais do que estes outros?”.
 A expressão “estes outros” sugere os outros discípulos (cf. Jo 21.1-14). Em outras palavras Jesus estaria perguntando a Pedro: “Você me ama mais do que estes outros discípulos me amam?”. Naturalmente Pedro não tinha como saber. Então, por qual razão Jesus fez essa pergunta? Justamente para colocar o impulsivo Pedro em seu devido lugar. Há pouco tempo Pedro achava que amava a Jesus mais que todo mundo. “Disse-lhe Pedro: Ainda que venhas a ser um tropeço para todos, nunca o serás para mim” (Mt 26.33). Agora, em resposta à pergunta de Jesus, Pedro reafirma seu amor, porém, recusa-se a fazer qualquer comparação com os outros. Ele simplesmente diz: “Sim, Senhor, tu sabes que eu te amo”. E para por aí.
Pedro se nega a dizer o tamanho do seu amor em comparação com os outros discípulos. Jesus não insiste na comparação. Apenas diz a Pedro como esse amor deve ser demonstrado: “Apascenta os meus cordeiros”. Jesus não desiste de Pedro. Nas outras vezes em que o Mestre pergunta: “Tu me amas?” e Pedro diz que sim, o Senhor de novo ensina como Pedro deve amá-lo: “Apascenta, pastoreia as minhas ovelhas”. É o processo de restauração daquele que seria o grande líder da Igreja de Jesus (cf. Mt 16.18,19).
Pedro aprendeu tão bem a lição do amor que mais adiante diria em uma de suas cartas: “pastoreai o rebanho de Deus que há entre vós, não por constrangimento, mas espontaneamente, como Deus quer; nem por sórdida ganância, mas de boa vontade; nem como dominadores dos que vos foram confiados, antes, tornando-vos modelos do rebanho” (1Pe 5.2,3).




[1] Cf. Guillermo Hendriksen, Comentário del Nuevo Testamento: El Evangelio Según San Juan. Grand Rapids: SLC, 1987, p. 761-765,771-775.
[2] D. A. Carson, Os Perigos da Interpretação Bíblica: A Exegese e Suas Falácias. 2ª ed. São Paulo: Vida Nova, 2005, p. 50. Nota 64.
[3] F. F. Bruce, João: Introdução e Comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova/Mundo Cristão, 1987, p. 345.
[4] John Calvin, Commentary on the Gospel According to John. Vol. 2. Grand Rapids: Baker Books, 2003, p. 287-92.
[5] W. Günther, H.-G Link, Amor. In: DITNT. Vol. 1. São Paulo: Vida Nova, 1984, p. 197.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Aprendendo com o Mestre

Josivaldo de França Pereira
 
Jesus estava orando em certo lugar; quando terminou, um dos seus discípulos lhe pediu: “Senhor, ensina-nos a orar como também João ensinou aos seus discípulos” (Lc 11.1). Os rabinos tinham formulado “modelos” breves de orações para seus discípulos como meios de instrução, a fim de ajudá-los no exercício da fé religiosa. João Batista ensinou seus discípulos a orar e, tempos depois, um dos seguidores de Cristo, tão impressionado pela maneira como o Mestre orava, pediu que o Senhor também os ensinasse.
Quem pediu esta lição ao Mestre não pensou somente em si mesmo, pois notou que o aprendizado da oração era uma necessidade coletiva dos seguidores de Jesus. Não sabemos quem era esse discípulo. Poderia ser um membro daquele grupo mais numeroso de seguidores de Cristo que não pertencia ao grupo dos doze. Algumas passagens bíblicas, como Lucas 6.13, revelam claramente a existência deste grupo mais numeroso. Ainda poderia ser um dos 70 missionários especialmente designados (cf. Lc 10.1-12,17-20). Entretanto, a possibilidade de que fosse um dos doze não deve ser descartada; nem mesmo a possibilidade de ter sido João ou André, ex-discípulos de João Batista (Jo 1.35-40).
A oração ensinada por Jesus é a do Pai Nosso, que em Mateus encontra-se mais extensa no Sermão do Monte (Mt 6.9-15), e em Lucas de maneira condensada (Lc 11.2-4). Em Mateus a oração é pronunciada no decurso de um sermão no início do ministério terreno de Cristo. Posteriormente (Lc 11.1), ela vem como resposta de Jesus ao pedido de um discípulo que possivelmente não estivera presente na ocasião anterior. Com o pedido “Senhor, ensina-nos a orar”, o discípulo talvez quisesse dizer que ansiava por uma forma de palavras que pudesse empregar, ou um padrão segundo o qual pudesse modelar suas orações, ou algumas instruções gerais sobre o assunto.
Jesus amava orar. Ele não apenas falava de oração. Ele praticava a oração. O Mestre orava sempre que algo muito importante estava para acontecer. Por exemplo: (1) Antes de iniciar seu ministério terreno, permaneceu no deserto por quarenta dias, jejuando e orando (Mt 4.1-11). (2) Antes de escolher e chamar os doze para ser apóstolos, “retirou-se para o monte, a fim de orar, e passou a noite orando a Deus” (Lc 6.12). (3) Antes de se transfigurar diante de Pedro, Tiago e João, para lhes mostrar como seria a glória do reino de Deus (Lc 9.27), ele permaneceu em oração (Lc 9.28). (4) Antes de andar por sobre o mar, “subiu ao monte, a fim de orar sozinho. Em caindo a tarde, lá estava ele, só” (Mt 14.23). (5) Antes de ser preso, julgado, açoitado e crucificado, orava com muita intensidade no Getsêmani (Lc 22.44).
E você, já orou hoje?


terça-feira, 29 de novembro de 2016

A pessoa que Deus justifica

Lucas 18.9-14

Josivaldo de França Pereira

Jesus propôs uma parábola (história do dia-a-dia que ilustrava realidades espirituais) a alguns (provavelmente uma plateia de fariseus) que confiavam em si mesmos, por se considerarem justos, e desprezavam os outros.
Dois homens subiram ao templo com o propósito de orar. Um era fariseu (partido religioso da época) e o outro publicano (cobrador de impostos). Tanto um quanto o outro eram judeus. Os fariseus odiavam os publicanos porque estes trabalhavam para o governo romano, portanto, eram tidos como traidores pela maioria dos judeus.
Ambos foram ao templo orar. O fariseu, posto em pé, orava de si para si mesmo, dizendo: “Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros, nem ainda como este publicano; jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de tudo quanto ganho”.
As realizações externas deste fariseu eram dignas de admiração e imitação. O problema é que aos seus olhos ele se achava melhor que as outras pessoas. O fariseu (como aqueles a quem Jesus se dirigia) confiava em si mesmo, por se considerar justo, e desprezava os outros acreditando que era mais íntegro do que eles. Preconceituosamente, ele via como roubadores, injustos e adúlteros qualquer um que não fosse fariseu como ele (cf. Mt 5.46,47; 23.23). Isso não lembra alguns religiosos dos nossos dias que pensam que somente eles devem ir para o céu?
Contudo, o fariseu foi longe demais em seu preconceito ao se voltar para o publicano, afirmando que não era como o coletor de impostos, visto que jejuava duas vezes por semana e dava o dízimo de tudo quanto ganhava. Como dissemos, as ações deste fariseu eram boas por si só. O problema, como já dissemos também, era a arrogância dele. De acordo com a Bíblia, o ego exaltado é a primeira das seis coisas que Deus aborrece (Pv 6.16-19).
O fariseu pensou que estivesse realmente orando a Deus, mas Jesus observa que esse homem orava de si para si mesmo. A oração que não é proveniente de um coração contrito e sincero não é feita a Deus. Bem diferente foi a atitude do publicano. Estando em pé, ao longe, ele não ousava nem ainda levantar os olhos para o céu, porém, batia no peito, dizendo: “Ó Deus, sê propício a mim, pecador!”.
Jesus finaliza a parábola destacando que o publicano voltou para casa justificado por Deus, pois sua oração foi ouvida, e não o arrogante e impiedoso fariseu; porque todo o que se exalta será humilhado, e todo o que se humilha será exaltado.
Conta-se, em uma antiga ilustração, que um jovem pregador subiu ao púlpito cheio de confiança. Todavia, ele pregou mal, e voltou para o seu lugar bastante constrangido. Logo depois, o zelador da igreja, vendo-o abatido, comentou: “Meu jovem, se você tivesse subido ao púlpito como desceu, certamente você teria descido como subiu”. De fato, todo aquele que se exalta será humilhado; mas o que se humilha será exaltado.

sábado, 26 de novembro de 2016

Morre Russell Shedd

Morreu, na madrugada deste sábado (26/11/2016), o Dr. Russell P. Shedd.
O planeta perde um grande homem de Deus. 
Tive o privilégio de ter dois livros prefaciados por ele (Personagens Esquecidos da Bíblia e Paulo). 
Em julho deste ano, quando falei com o Dr. Shedd se prefaciaria o livro Paulo, ele aceitou de bom grado, apesar de estar bastante gripado. 
Meu livro, publicado em agosto deste ano, foi a última obra prefaciada por ele. Descanse em paz grande guerreiro!

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Deus é Fiel

Josivaldo de França Pereira

É comum ver a expressão “Deus é fiel” em vidro de automóvel, parachoque de caminhão, porta de residência, etc. Contudo, no que as pessoas estão realmente pensando quando se deparam com essas palavras? A expressão “Deus é fiel” em si mesma está correta, porque Deus é fiel de verdade! O problema é o entendimento equivocado que se tem dela.
 Para a maioria das pessoas (muitas das quais influenciadas pela teologia da prosperidade), a fidelidade de Deus não passa de um conceito mal empregado para atender seus desejos materialistas imediatos. Ou seja, Deus é fiel sim, mas para nos dar carro, casa, dinheiro, etc.
Na Bíblia, a fidelidade de Deus é um dos atributos ou qualidades mais nobres do seu Ser. "Saberás, pois, que o Senhor teu Deus é Deus, o Deus fiel..." (Dt 7.9). Essa qualidade é essencial ao seu Ser; sem ela ele não seria Deus. Pois, ser Deus infiel seria agir contrariamente à sua natureza, o que é impossível. "Se formos infiéis, ele permanece fiel: não pode negar-se a si mesmo" (2Tm 2.15). A fidelidade é uma das gloriosas perfeições do seu Ser, é como se ele estivesse vestido com esta perfeição. “Ó Senhor, Deus dos Exércitos, quem é forte como tu, Senhor, com a tua fidelidade ao redor de ti?!" (Sl 89.8).
Fidelidade pressupõe aliança e suas promessas; um pacto ou acordo entre as partes. Por conseguinte, toda aliança tem suas condições. No caso da aliança entre Deus e o ser humano há bênçãos para os que a cumprem e consequências terríveis para quem a deixam. Desse modo, a fidelidade de Deus tanto nos ajuda quanto nos afeta.
Se obedecemos a Palavra do Senhor somos abençoados pelo Deus fiel, porém, se a desobedecemos sofremos as consequências do mesmo Deus fiel. “Sua Palavra não contém somente numerosas ilustrações de sua fidelidade no cumprimento de suas promessas, mas também registra numerosos exemplos de sua fidelidade em fazer valer as suas ameaças” (A. W. Pink).
Deus é fiel não somente quando afasta as aflições, mas também é fiel quando as envia. “A mente dos servos de Deus se tranquilizaria bastante se eles se lembrassem de que a aliança de Deus o obriga a lhes aplicar correção oportuna” (Pink).
O Eterno não deve ser imaginado por ninguém como se fosse uma fada madrinha, ou como um produto à disposição na prateleira de um supermercado, a fim de satisfazer nossos mesquinhos interesses consumistas. Ele é Deus. Senhor soberano que deve ser servido, temido e reverenciado por nós.
Se todos soubessem o que significa de fato a expressão “Deus é fiel”, veriam quão longe estão da natureza e caráter do Deus fiel.  O nosso Deus é fiel a ele próprio, à sua Palavra e promessas. Bendito seja o Deus fiel!